Oficinas de arte no Ecomuseu mexem com os sentidos de alunos com deficiência

Oficinas de arte no Ecomuseu mexem com os sentidos de alunos com deficiência

09h58 - 16/10/2019

A liberdade para contar histórias com as sombras. Fotos: Rubens Fraulini

Obstáculos físicos não existem para a arte. Com ela, o que era frio e inanimado ganha formatos novos e expressivos. O que era escuro e silencioso vem à luz para ter brilho e cor. E, se esse é o meio de expressão mais democrático que existe, significa que para se manifestar é preciso apenas ter criatividade. Para provar essa teoria, na última segunda-feira (14), o Ecomuseu de Itaipu convidou duas turmas especiais para a série de atividades que estão sendo realizadas em comemoração aos 32 anos do espaço.  

A argila ganhou formas pelo toque. 

Pela manhã, os integrantes da Associação de Deficientes Visuais de Foz do Iguaçu (Adevifoz) foram ao museu para a oficina de escultura em argila, ministrada pela artista plástica Maria Cheung. À tarde, os alunos da Escola Lucas Silveira, formada pela Associação de Pais e Amigos dos Surdos de Foz do Iguaçu (Apasfi), participaram da oficina “Da sombra ao teatro: Teatro de sombras com formas animadas”, com o ator e bonequeiro Leonardo Pontes.  

Expressões em argila

Cada um dos participantes transformou a oficina em uma experiência pessoal. 

O objetivo era transformar a argila fria em um autorretrato, criado com o toque. O ato de sentir o formato do próprio rosto, como disse Patrícia Céspedes, foi mais útil para a criação do que se pudesse enxergá-lo. Cega desde os seis anos, ela mostrou ao mundo uma nova aparência, baseada na imaginação. 

Pelo toque, Patrícia se imagina na argila. 

“Eu amo artesanato. Quando eu toco nesses materiais, posso descobrir novas formas, testar habilidades e desenvolver a minha paciência. Por mais que eu não veja o resultado final, posso senti-lo. Na minha cabeça, eu desenho uma forma, e isso é algo só meu”, disse Patrícia. 

Leonardo criou um autorretrato baseado em sua imaginação. 

A experiência da criação foi compartilhada por Leonardo Silgueira. O estudante do curso técnico em Informática, no Instituto Federal do Paraná (IFPR/Foz), trocou, por um dia, a exatidão dos números pela subjetividade da imaginação. “Eu pude sentir e colocar numa forma tátil aquilo que eu imagino ser. Imaginar-me pelo toque foi novo para mim. Não vou me esquecer disso. Com toda a certeza, é uma maneira especial de enxergar”, celebrou Leonardo. 

O brilho nas sombras 

As sombras tornaram todas as história possíveis. 

Mais tarde, foi a vez das crianças. Em poucos minutos, a sala, que era escura, foi tomada pelo brilho da criatividade infantil. A cartolina vazia foi sendo preenchida com desenhos dos mais diversos tipos. Rapidamente, uma mistura de corações, borboletas e lagartos gigantes ganhou vida ao entrar em contato com os fragmentos de luz em meio às sombras. A partir daquele momento, eles estavam livres para criar as próprias histórias. 

Imaginação, criação e execução. Os processos do teatro. 

Verbalizar aquele sentimento nem era necessário. A pequena Emily, de sete anos, contou que gostou muito de recortar, desenhar e brincar com as sombras. A cada gesto em Libras, era possível perceber a alegria nos olhos. 

Emily, com a ajuda da professora Thaís, detalha a sua experiência na oficina. 

O Weverton, de 12 anos, também aproveitou o momento para desenhar seus animais favoritos e imaginá-los juntos em uma grande brincadeira. “Eu nunca os vi como sombras. É diferente de tudo que eu já brinquei”. 

As crianças não precisaram de muito tempo para já começarem a criar. 

Na visão dos realizadores 

Maria Cheung repassa seus conhecimentos para tornar a arte mais inclusiva. 

Para os facilitadores das oficinas, utilizar o próprio talento em ações desse tipo é uma obrigação do artista. Segundo Maria Cheung, ver os resultados e as descobertas torna tudo mais especial. “Por não enxergarem o que estão fazendo, toda a conquista torna-se nova. Eles realizam obras extremamente criativas apenas com base na imaginação. No final das contas, a arte é isso: retratar o mundo da maneira como você o entende”, argumentou a artista plástica. 

O ator Leonardo Pontes conta histórias com elementos simples mas acolhedores. 

De acordo com Leonardo Pontes, a imaginação também é a matéria-prima para o seu trabalho. “O teatro envolve todos os sentidos do corpo humano. Podemos contar histórias das mais diversas formas. De maneira verbal ou não, o que importa mesmo é sentir aquilo que se está fazendo”, disse o ator. 

Arte com as mãos e com a imaginação. 

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