Projeto Direito à Poesia leva leitura a instituições prisionais

Projeto Direito à Poesia leva leitura a instituições prisionais

08h22 - 08/01/2018

Em um espaço denominado “cela de aula”, rodas de leitura contribuíram para um momento de diálogo e de liberdade de expressão dentro de duas instituições prisionais de Foz do Iguaçu. No Centro de Reintegração Social Feminino  (Cresf) e na Penitenciária Estadual de Foz do Iguaçu II (PEF II), foi desenvolvido o projeto de extensão “Direito à poesia: círculos de leitura em situação de privação de liberdade em Foz do Iguaçu”. A iniciativa, que ocorre desde 2015, também contemplou oficinas de escrita na PEF II. Um dos desdobramentos desse trabalho foi a produção de um livreto, cuja entrega aos presidiários - autores das expressões escritas - ocorreu na última segunda-feira (18), por um dos coordenadores do projeto, a professora Cristiane Checchia, do curso de Letras - Artes e Mediação Cultural.

“Neste projeto, pensamos a literatura no sentido de liberdade, de ressignificação do sujeito diante de uma experiência nova com a linguagem, e uma maneira de fugir dos padrões do que se entende por estar nesses locais. Nas atividades, existe um espaço livre para refletir, estar em contato com outros mundos, paisagens, pensar a memória, o autorretrato e a língua como experimentação”, explica a docente. Ela pontua que a ideia do projeto não é pensar a leitura da literatura nos cárceres como espaço de redenção ou no sentido de exemplo moral. “Queremos fugir dessa armadilha e não aprisionar o que se espera da literatura pra essas pessoas que estão lendo nessas condições”, coloca.

As rodas de leitura são realizadas de forma horizontal, com abertura para a fala e a troca, criando, assim, um espaço de liberdade, ainda que circunstancial. Embora o projeto não resulte em redução de pena, ele ocorre no contexto de incentivo a leis de remissão de pena por meio de pProjeto de extensão Músicas da América Latina, em diálogo com o projeto Direito à Poesia, em apresentação no Cresfráticas de leitura, instituídas em âmbito federal e estadual. 

Algumas atividades ocorreram em articulação com outras ações de extensão da Unila, como o “Laboratório de tradução” e “Músicas da América Latina”, diálogo esse que foi desmembrado em uma apresentação musical dentro do Centro de Reintegração Social Feminino, como parte da adesão do projeto a uma campanha pelo fim da violência contra a mulher. Outra iniciativa que dialogou com o "Direito à poesia" foi o de atendimento ginecológico em detentas, também no Cresf, ação que integrou a disciplina de Ginecologia, do curso de Medicina da Unila.

Literatura e reflexões

Nos círculos de leitura e na oficina escrita entram poesias, contos trazidos pela equipe do projeto ou materiais sugeridos pelos presidiários – a exemplo de músicas e até publicidades. “Levamos alguns textos buscando que os detentos reflitam sobre a vida deles, mas não de forma direta. Alguns dos textos foram os de autorretrato, que os levaram a repensar e escrever sobre a própria vida. O trabalho com a literatura tem a vantagem de falar de forma indireta e de diversas maneiras, não precisa ser no formato de depoimentos judiciais. Isso dá a possibilidade de falar preservando a intimidade – um espaço que é negado no presídio”, descreve Mario Torres, também coordenador do projeto e docente de língua espanhola na Unila.

Outro relato a partir da experiência do projeto foi de uma interna paraguaia que, ao participar da roda de leitura, no Cresf, retomou o contato com sua língua materna, o guarani – tacitamente proibido dentro do presídio por tratar-se de um idioma desconhecido entre as detentas e que possui potencial de código secreto de comunicação. “Ela se ressentia disso. Levamos poesia de Suzy Delgado, paraguaia e que também escreve em guarani, e a detenta pôde declamar o texto em voz alta. Isso cria um processo de conexão com o lugar de origem, o que nem imaginávamos que podia acontecer e não temos condições de medir”, relata Cristiane Checchia.

O exercício de reflexão e expressão, ao longo do projeto, também está materializado em cartas que os detentos escreveram em defesa da Unila e sobre a importância do projeto para eles. Além disso, resultou no livro “Antologia – Direito à Poesia II”, produzido este ano. “São textos muito variados, com relatos que se aproximam de lembranças, outros com cunho religioso. Há ainda os que trabalham com metáforas, com criação de personagens, montando histórias totalmente fictícias, e com presença de sagacidade e humor também”, relata a estudante Carolina Guerra, bolsista do projeto, acadêmica do curso de Letras - Artes e Mediação Cultural, e responsável pela montagem do livro. 

Fonte: Unila

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