A despedida de Ana Maria

A despedida de Ana Maria

11h17 - 24/10/2007

Poucas pessoas têm tanto carisma quanto Ana Maria Gabriel Paes de Andrade. Quando ela chega, logo rouba a cena. Sua alegria ganha brilho próprio e contagia todos que estão a sua volta. 
   
Assim é Aninha, uma mulher guerreira que desenhou seu próprio destino, a partir de muita determinação e força de vontade.  Há 33 anos em Itaipu, Ana cresceu e amadureceu junto com a empresa.  Agora, a secretária da Diretoria Executiva entra na fase da aposentadoria. Em novembro, ela encerra um dos mais importantes ciclos de sua vida: o trabalho na empresa, onde criou sonhos, construiu história e fez muitos amigos. O saldo de tanto empenho? Uma carreira de sucesso.

    

    

Natural de Cambé, Norte do Paraná, Aninha veio para Foz do Iguaçu em 1973, com a família: os pais, Antônio Gabriel Paes Filho e Aparecida Violin Paes, e sete irmãos. Um ano depois, seu destino estava traçado. Em setembro de 1974, quando caminhava pela Rua Almirante Barroso, a colega viu um anúncio de recrutamento para trabalhar na Itaipu. Era ali que funcionava o escritório da empresa. Decidiu arriscar. Preencheu a ficha de emprego e logo em seguida foi chamada. “Não sabia nem o que era uma usina. Só sabia que era um bom emprego”, diz Aninha. E ela estava mesmo certa. 
  


   
Mas um detalhe impediu sua contratação imediata. Ana era menor de idade. Faltavam cinco dias para ela fazer aniversário e o responsável pelo recrutamento pediu para ela retornar quando completasse 18 anos, já com os documentos providenciados para a contratação.  No dia de seu aniversário, com o protocolo em mãos, já que as carteiras de trabalho e de identidade demorariam quatro meses para ficarem prontas, Ana dava início a sua história na usina. Primeira função: recepcionista.
   


    

Era Aninha quem recebia as fichas de emprego de todos os candidatos que chegavam ao escritório. Dois meses depois, a colega já estava trabalhando na área de recrutamento. Nesta função, ela era também a responsável por colocar anúncios nas rádios para preenchimentos das vagas. 

Certa vez, Aninha se esqueceu de pedir que uma dessas propagandas fosse cancelada. “Eu era nova, ainda estava aprendendo e dei um bola-fora. Um homem chegou de mala e cuia na cidade, mas as fichas já estavam preenchidas havia dois dias. Foi bem complicado”, lembra.  
    

   
Depois, Ana passaria a atuar na área de Benefícios. “Adorava o trabalho. Organizava todos os pedidos de consultas e reembolsos. Na época, era tudo feito à mão”, conta.  Mas Ana sempre pensava que o futuro poderia ser melhor. Um determinado dia, decidiu pedir aumento de salário. O pessoal da área achava que ela não teria coragem. “Todos tinham medo do Júlio de Mello, mas eu pedi aumento mesmo assim. E sabe o que o Júlio fez? Me pagou um sorvete". A colega ri do episódio até hoje.
    

   
Secretária

Pelas mãos de Sérgio Levy, Ana foi trabalhar na Financeira, desta vez numa outra função, a de secretária. Tempos depois, assumiria o mesmo cargo na Auditoria, na DG. Ana começava ali a transitar mais próxima ao gabinete.
    

Em 1982, Ney Braga, que na época era o diretor-geral brasileiro, convidou Ana para ser sua secretária e a montar seu gabinete. Ana tomou todas as providências. Mas o grande salto de sua carreira viria 14 anos depois. O então diretor-geral brasileiro Euclides Scalco convidou-a para ser a secretária executiva da Diretoria Geral, cargo com status de superintendência. 
 
“Como gosto de desafios, aceitei na hora!”. Ana lembra que, na primeira reunião de diretoria da qual participou (maio de 1996), tremia tanto que não sabia o que fazer.  “Fiquei até as 3h da manhã para montar a pasta com os documentos da reunião”. Pouco tempo depois, ela já dominava bem o assunto.
   

O primeiro amor
  
Aninha e os filhos: Ney Gustavo e Ana Letícia.
    

   
Entre um cargo e outro, Ana conheceu e se apaixonou pelo colega Heitor Ney Scarinci de Andrade. Do ex-casamento, os filhos Ney Gustavo, de 25 anos, e Ana Letícia, de 21. Ney é advogado e trabalha num grande escritório em Curitiba. Hoje, está cursando MBA em Gestão de Negócios. Já a filha trancou a faculdade de Arquitetura e está fazendo curso de designer de interiores, em Joinville (SC). Os filhos são os grandes amores de Ana, além do "namorido" (mescla de namorado e marido)
, José Francisco Borba Martins, o Kiko. 


Ana e o namorido, Kiko. 
        

Mulher e família

   
Ana e as amigas Dôra e Edna Carvalho.
   
       

Para conciliar o emprego e a vida de casada, Ana teve que contar com a ajuda de um montão de gente: avó, babás e empregadas. Por causa das reuniões, Ana trabalhava até muito tarde. “Era difícil, mas deu tudo certo”. As crianças cresceram e estão bem encaminhadas. Arrependimentos? Nenhum.


   

“Casei quando estava apaixonada, me separei quando o casamento se desgastou, aproveitei todas as oportunidades que surgiram e estou bastante realizada”, diz Aninha.
     

De volta para a escola


Há seis anos, Ana, que havia parado os estudos pouco antes do casamento, voltou para a sala de aula. E o retorno foi um sucesso. Há dois meses está formada em Administração de Empresas com Gestão em Marketing, pela Uniamérica. “Fui para a faculdade sem o compromisso de ter que ir para o mercado de trabalho”. Enquanto os colegas precisavam montar um plano de carreira, Ana já estava planejando o PDI.


    

Planos
Nos planos futuros, “viajar, cuidar mais de mim, não ter horário nem compromisso com nada. Quero me descobrir fora de Itaipu”. 
E Ana pensa também em se engajar na política. Quem sabe está aí uma possível candidata a vereadora, no futuro.


Currículo

Além de trabalhar em Itaipu, Aninha foi presidente do Ipê Clube e curadora do Hospital Costa Cavalcanti, durante duas gestões. Outro trabalho da qual se orgulha é ter sido a primeira coordenadora do Comitê de Gênero da empresa. E também dos amigos que aqui fez. 
    

A opinião do DGB e amigos

E o que pensam o DGB e os amigos de Ana Maria sobre ela? Com eles, a palavra.

 

Carta de despedida (Por Jorge Samek)

Toda despedida que se preze é emocionada e nostálgica – uma ausência pressentida, uma saudade antecipada. Dói para quem parte, dói para quem fica. Algumas despedidas são alegres, outras são tristes. 

 Eu gostaria de transformar a despedida da Ana Maria, que deixará a Itaipu ao final este mês, depois de 33 anos de serviço, num evento alegre e festivo. Tenho certeza que ela prefere risos a lágrimas ao dizer adeus.  Ana Maria vai deixar um enorme vazio. Com absoluta certeza, esta opinião é compartilhada por todos aqueles que tiveram o privilégio de conviver com ela nestas mais de três décadas dedicadas à Itaipu. 
  
 “Temos sempre uma oportunidade para aprender coisas novas”. Com esta postura diante do trabalho e da vida, Ana Maria construiu sua reputação profissional dentro da empresa, conquistando a admiração e o reconhecimento pelo seu espírito de liderança, ética e profissionalismo. Uma das suas qualidades mais apreciadas pelos seus colegas é a capacidade de fazer amigos e de construir boas relações pessoais e profissionais no ambiente de trabalho e fora dele. 
    
Sua trajetória profissional merece destaque. Dizer que Aninha é patrimônio de Itaipu pode soar ambíguo e deselegante – traindo meu esforço para homenagear uma funcionária que fez história na empresa. Talvez seja mais correto dizer que Itaipu é parte do seu patrimônio. Não apenas na condição de brasileira que, juntamente com os 190 milhões de concidadãos, é legítima “proprietária” de 50% do seu patrimônio, mas como colaboradora que ajudou desde o início a construí-la e transformá-la numa empresa líder.   
   
Ana Maria, muitíssimo obrigado por tudo o que você fez pela Itaipu. Sentiremos, sim, sua falta. Mas queremos desejar-lhe toda felicidade que você merece nesta nova etapa de vida que se inicia.
 
  

O Silêncio de Ana Maria (Por Helio Teixeira)

Conforme a narrativa da matéria principal feita pela competente jornalista Patrícia Iunovich, nossa personagem completou na Itaipu, no mês passado, 33 anos, a idade de Cristo crucificado. Em 25 deles, Ana Maria manteve não o silêncio dos inocentes, mas o silêncio de uma profissional, que hoje pode dizer que participou de forma anônima (e silenciosa) da história contada em prosa e verso desta binacional, e dos bastidores dela. 
    
Aprendi nos meus tempos de repórter no período militar pós-64, que o grande negócio para se ter informações “de cocheira”, aquelas guardadas a sete-chaves, portanto, muito mais interessantes do que aquelas que os poderosos do momento deixavam vazar, era conquistar (no bom sentido) suas secretárias. Mas não funcionou com a Ana Maria Paes de Andrade, quando cheguei em 1995, e permaneci por quase 11 anos na Comunicação Social. 
   
Ela me conquistou pelo seu espírito aberto, despojado, alegre, bem-humorado, mas informação de “cocheira”, que é bom, nem pensar. Esse comportamento de respeito profissional com a confidencialidade das informações e sua competência  a fizeram passar por sucessivas Diretorias,  secretariando centenas de reuniões, onde a caneta e o papel, ou o gravador, despejariam relatos em Atas consubstanciando decisões que atingiam não só os interesses da empresa, mas do próprio governo brasileiro. 
  
Talvez por esse silêncio obsequioso e obrigatório de sua função, ela fazia uma transmutação principalmente quando largava aquela gargalhada incontida com os amigos(as) fora do trabalho. O relato da Patrícia de que a Ana pode mergulhar na política não me causou estranheza. A sua vivência, principalmente nos últimos 25 anos, rodeada de cardeais binacionais, deve ter-lhe dado um bom tempero para dar nós em pingos d’água. Mas, nesse momento em que Itaipu vai sentir falta do jeitão da Ana Maria, a quem sempre tratei de “Ann” em respeito aos seus cabelos muitas vezes tingidos em fogo-alto e ao sorriso envolvente, ouso lhe sugerir uma receita: - ANN, VAMOS ESCREVER TUAS MEMÓRIAS? Daria um verdadeiro tratado.


O poder de Ana Maria (Por Maria Auxiliadora Alves dos Santos)

 


  



Ela é poderosa. Tanto é, que chegou onde chegou.
Mas, além da competência  e da hábil inteligência, este poder emana do enorme prazer e alegria que ela tem de viver. E que alegria! Uma alegria  poderosa, contagiante, e que traz  o branco da paz estampado no teclado que religiosamente ela exibe para todos  e todas, todos os dias...o sorriso de  Ana. Que simpatia! A mesma que eu tive a sorte de encontrar quando entrei em Itaipu. Mas eu não sabia que o poder desta alegria ia além do contentamento e satisfação de estar de bem com a vida. 

O poder desta alegria criava laços de empatia e sementes de grandes amizades. Amizades daquelas que a gente conta nos dedos, misto de lealdade com solidariedade, afeição incondicional, "laços de família". Eu que acredito no poder desta alegria, hoje tenho o prazer de dizer que fui agraciada pela amizade da Ana Maria, minha irmã branca de fé na vida e respeito ao próximo. No final da brilhante e glamourosa carreira na Itaipu, eu só posso sorrir pra Deus e agradecer por ter encontrado uma Ana Maria no meu caminho. 
    

E para o seu novo caminho, minha linda, flores e aplausos... muitos aplausos, dos que têm sensibilidade para reconhecer o poder da sua alegria.
 Da sua amiga Dodozita, com todo afeto, respeito  e admiração.

    

 

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