Valor Econômico

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08h18 - 31/08/2007

Jorge Samek: a excelência da tecnologia atraiu a atenção dos chineses
A maior hidrelétrica do mundo, responsável por 20% de toda energia consumida no Brasil, passa por um momento de redefinição. Parecido com aquele de um executivo maduro que deixa a profissão porque já fez de tudo, enriqueceu e agora decidiu dar um novo rumo à sua vida.

Ao fim de 33 anos de implantação ininterrupta - as duas últimas turbinas foram instaladas no ano passado, completando as 20 previstas no projeto original - a Itaipu Binacional, na fronteira entre Brasil e Paraguai, entra na fase de atualização tecnológica das 18 unidades geradoras projetadas na década de 1970. Serão US$ 300 milhões de investimento, num prazo de dez anos. Do controle analógico, a operação das unidades passará a ser digital.

É uma fase em que a usina junta tudo o que aprendeu e a tecnologia que ela mesma desenvolveu e organiza esse conhecimento para ser aproveitado por todos. Itaipu está reafirmando uma série de papéis assumidos ao longo dos anos, e, de uma grande produtora de energia, passa também a ser destaque em outras áreas, especialmente na proteção ao meio ambiente.

"Temos um desafio ainda maior, que é fazer a modernização das primeiras unidades e ampliar nossas ações socioambientais e de promoção do turismo", diz o diretor-geral brasileiro de Itaipu, Jorge Samek. Segundo ele, a diretoria que assumiu em 2003 adotou um modelo de gestão com maior abertura para questões como crescimento sustentável, geração de emprego e inclusão social.

De um lado, a excelência da tecnologia atraiu a atenção dos chineses, que querem o pessoal de Itaipu fazendo a manutenção da Usina de Três Gargantas. Os técnicos da usina conseguiram, por exemplo, diminuir os dias parados necessários para manutenção das turbinas de 133 para 13. "E vamos chegar a 11", afirma Samek.

De outro, a hidrelétrica brasileira criou o Parque Tecnológico Itaipu, usando os barracões que abrigavam os barrageiros. Lá funciona um campus universitário, o Centro de Engenharias e Ciências Exatas da Unioeste, que oferece os cursos de Ciências da Computação, Mecânica, Engenharia Elétrica e Matemática. O centro ficou em segundo lugar no provão de 2004, atrás apenas do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).

Nesse espaço, há de tudo relacionado a educação, da alfabetização até a pós-graduação, com incursões no desenvolvimento empresarial - lá está a Incubadora Santos Dumont, que reúne nove empresas.

Entidades de pesquisa e apoio à pesquisa trabalham com mais de cem instituições do Brasil, Paraguai e Argentina, incluindo órgãos federais, estaduais e municipais, universidades e outros institutos de ensino e pesquisa. E deve receber em breve a sede da Universidade do Mercosul, o escritório da FAO, o primeiro Centro de Hidroinformática da Unesco, o Centro de Saberes e Cuidados Ambientais da Bacia do Prata e a Universidade Aberta do Brasil.

Neste trabalho de educação Itaipu investiu R$ 20 milhões; outros R$ 15 milhões serão aplicados nos próximos três anos. A instituição ainda está buscando o aporte de mais R$ 32 milhões do governo federal para novos projetos.

"Temos alguns dos melhores técnicos em muitas áreas", conta Samek. Como muitos deles começavam a deixar Itaipu foi criado o parque tecnológico. Lá está, por exemplo, o melhor laboratório de concreto do mundo. O parque também desenvolve pesquisas avançadas, entre elas o carro elétrico e fontes alternativas de energia, como o hidrogênio (considerado combustível do futuro) e a biomassa.

Com as cidades que a cercam, a relação da hidrelétrica tem sido algo como a de um irmão mais velho e generoso. Enquanto toda produção de energia sai diretamente pelo Linhão de Furnas, mesmo antes da interligação de todo sistema brasileiro, os municípios que perderam terras férteis para a formação do reservatório - 135 mil hectares - recebem royalties desde 1991.

O Governo Federal e o Estado do Paraná já se beneficiavam desde 1985, quando começou a produção comercial de energia. De lá para cá, Itaipu pagou US$ 3,08 bilhões em royalties. Para os 15 municípios paranaenses trata-se de um dinheiro inimaginável com a arrecadação de impostos, o que os torna muito ricos diante de seus vizinhos.

Itaipu tem uma receita anual de cerca de US$ 3,8 bilhões (previsão para 2007) . Entre 70 projetos e 108 ações ambientais, o que mais impressiona é a implantação de um enorme corredor biológico (faixas de floresta que ligam áreas protegidas, para permitir a mobilidade dos animais e a recomposição da flora), para o norte até o Parque Nacional da Ilha Grande, onde começa o Pantanal matogrossense, e para o Sul, até o norte do Rio Grande do Sul. Ali estão também seis refúgios biológicos (dois brasileiros, três paraguaios e um binacional).

"O trabalho ambiental, que inclui a gestão das microbacias, garante a qualidade da água que chega ao reservatório, e aumenta a vida útil da usina", diz Samek.

Localizada a 40 quilômetros das Cataratas do Iguaçu, entre as fronteiras e os centros de compras do Paraguai e da Argentina, região que recebe mais de 700 mil turistas por ano, a hidrelétrica quer também incentivar o turismo, fazendo que o visitante permaneça mais um dia em Foz do Iguaçu para um passeio pela usina e para praticar esportes radicais.

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