Luz e escuridão: Eduardo Ferraz conta sua história de luta contra a epilepsia

Luz e escuridão: Eduardo Ferraz conta sua história de luta contra a epilepsia

12h20 - 13/06/2018

A luz se apagou na cabeça de Eduardo justamente quando ele pisou no degrau mais alto daquela íngreme escada. Não pôde impedir que seu corpo rolasse várias vezes escada abaixo e acordasse, minutos depois, na sala do diretor Johann Probst, do Colégio Cristo Rei, em Jacarezinho, Norte do Paraná. Uma semana depois, veio a primeira convulsão. Eduardo tinha apenas 13 anos e sua vida mudaria para sempre.

O colega Eduardo Ferraz (MAR.CD) comemora a nova fase da vida.

O rosto sorridente de Eduardo Ferraz Costa, do Departamento de Reservatório e Áreas Protegidas (MAR.CD), hoje aos 55 anos, talvez esconda a vida de dificuldades e privações pela qual o colega passou desde que descobriu ter epilepsia. A gravata alinhada, adotada por ele há um mês, reflete seu atual estado de espírito: no final do ano passado, Eduardo passou por um procedimento cirúrgico que promete acabar com as convulsões que o acompanham desde a adolescência.

A terapia por Estimulação do Nervo Vargo (VNS, na sigla em inglês) utiliza impulsos eletromagnéticos para prevenir as crises de epilepsia. O aparelho é colocado na altura do peito, como se fosse um marca-passo. A cada três minutos ele emite um impulso em direção ao nervo vago esquerdo, situado no pescoço. Este nervo é um grande elo de comunicação entre o cérebro e as conexões nervosas espalhadas pelo corpo.  

O imã no pulso pode ser usado para acionar o dispositivo, colocado na altura do peito. Ele emite uma onda eletromagnética em direção ao nervo vago, localizado no pescoço.

O estímulo ao nervo impede as crises e reduz os tremores, mas, se por algum motivo a pessoa sentir que vai ter uma convulsão, ela mesma pode acionar o aparelho usando um imã colocado em uma pulseira. “Se eu estiver passando mal, no momento de ‘aura’, que são aqueles segundos antes da convulsão, encosto este imã no aparelho e ele dispara uma onda de intensidade maior que faz relaxar todo o organismo”, explica Eduardo.

A previsão é que até meados de 2019 Eduardo se livre completamente das convulsões e dos efeitos colaterais dos remédios. “Uma pessoa que tem uma convulsão é como se fizesse uma maratona em cinco minutos. É uma descarga que mexe com todos os músculos. E o pós-convulsão é terrível! A gente fica com o corpo todo dolorido, sem vontade de fazer nada”, conta.

Além da convulsão, Eduardo vai se livrar da influência dos medicamentos em seu corpo. “A gente sente sono, não tem ânimo para nada, dá tontura, ânsia de vômito”, diz. “Mas o pior é como somos vistos pela sociedade. Já fui chamado de 'maluco', 'tonto', 'bobo'. As pessoas dizem ‘ah, ele não consegue fazer nada’. Mas eu já conheci tanto portador de epilepsia com grande capacidade técnica”, desabafa.

Os degraus

Eduardo tinha saído de casa apressado e sem tomar café em um dia que teria aula de Educação Física. O professor chamou a turma para uma partida de futebol, mas, antes de entrarem em campo, os alunos tiveram que correr 4 km. Aquilo baixou a pressão do menino de 13 anos. “Eu estudava no segundo andar do colégio e estava descendo as escadas. Quando pisei no primeiro degrau, desmaiei e caí batendo a cabeça nos degraus”, lembra.

Eduardo Ferraz está na Itaipu desde 1987, sempre trabalhando na área ambiental.

Ele foi levado para o hospital e o médico não acusou nenhum traumatismo. Só receitou uma dieta simples e o mandou para a casa. “Passou uma semana, eu estava chegando ao colégio e tive minha primeira convulsão”, conta. Então, a família levou Eduardo para consultar um neurologista em São Paulo. Foi difícil aceitar que ele seria portador de epilepsia dali em diante. Mais difícil ainda foi fazer um menino tão novo compreender o resultado que aquilo traria aos olhos da sociedade.

“Quando voltei de São Paulo e entrei na sala de aula, parecia que eu tinha uma doença extremamente contagiosa. Eu sentava sempre na frente da sala e, quando cheguei, não tinha mais meu lugar, só umas carteiras lá nos fundo”, relata. “E assim foi minha vida por todo o período escolar. Eu tive que provar que era capaz de jogar basquete, futebol, porque a partir do dia do primeiro ataque, virei um excluído.”

Os colegas da área ambiental da Itaipu atuam na recuperação de áreas degradadas.

A necessidade de provar a capacidade a cada dia é algo que Eduardo teve que cultivar ao longo da infância até a vida adulta. “Se tiver alguém para te apoiar, a epilepsia não muda nada em nossa vida”, explica. “As pessoas não devem julgar os outros por motivo de doença, orientação sexual, por motivo político ou qualquer outro. Não importa. Ninguém é melhor que ninguém, só somos diferentes.”

Nova fase

Formado em Agronomia pela Fundação Faculdade de Agronomia Luis Meneghel, de Bandeirantes (Norte do Estado), Eduardo está na Itaipu desde 1987, como requisitado, e desde 1996, como crachá vermelho. Em sua atuação sempre na área ambiental, ele se orgulha de ter acompanhado todo o processo paisagístico e de recuperação de áreas degradadas da empresa desde o princípio. 

Enquanto os médicos estudam a combinação da intensidade dos impulsos elétricos e da medicação que Eduardo ainda precisa tomar, o colega aproveita para cuidar de si próprio. Procurou uma nutricionista, começou uma dieta com suplementação e mal espera a hora de poder começar a fazer os exercícios. A elegante gravata preta, em contraste com a camisa cinza da Itaipu, é sinal dos novos tempos. “Eu resolvi cuidar do bem mais precioso que Deus deu para a gente, que somos nós mesmos.”

A aposentadoria só deve chegar em três anos, mas o colega não está ansioso por isso não. "Eu gosto demais de trabalhar aqui", declara. Em sua nova fase de vida, ele só se preocupa de estar bem com aqueles que lhe querem bem. E conclui: "Todos somos belos se nos amarmos sem preconceito ou julgamento".

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