Brasileiro pode esperar nova alta na conta de luz

Brasileiro pode esperar nova alta na conta de luz

08h43 - 24/10/2017

A falta de chuvas e os reservatórios em níveis cada vez mais críticos preocupam a Agência Nacional de energia elétrica (Aneel), que deve discutir, na reunião de hoje, a possibilidade de modificar a metodologia de acionamento das bandeiras tarifárias. O sistema foi criado para sinalizar aumento de preço da energia quando as Termelétricas são acionadas, mas não está dando conta do recado e qualquer alteração resultará em mais aumento de tarifa para os consumidores.

Dados da Câmara de Comercialização de energia elétrica (CCEE) apontam que a arrecadação com as bandeiras somou R$ 1,78 bilhão nos oito primeiros meses deste ano. Porém, segundo o presidente da Associação Brasileira de Distribuidores de energia elétrica (Abradee), Nelson Leite, o deficit das concessionárias chegará a R$ 6 bilhões no fim de 2017. “A situação hidrológica piorou muito. A bandeira tarifária não é mais suficiente para cobrir o adicional pago pelas empresas”, afirmou.

Diante disso, a Aneel decidiu abrir uma audiência pública para reavaliar o instrumento da bandeira tarifária. Conforme Rafael Mathias, sócio-fundador da Capitale Energia e diretor da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel), o modelo do sistema define a bandeira na primeira semana do mês com base em previsões. “Isso o torna muito volátil. Em junho, houve uma chuvinha que quase não gerou energia, mas o modelo interpretou que a bandeira podia ser verde, quando não podia”, exemplificou.

Isso ocorreu, segundo o especialista, porque a metodologia considera apenas o valor do Custo Marginal de Operação (CMO) — preço do megawatt/hora (MW) da Termelétrica mais cara despachada — sem avaliar o risco hidrológico. “Uma forma de reduzir a volatilidade seria aplicar outra variável na fórmula das bandeiras, como as condições dos reservatórios”, opinou Mathias.

O presidente da Thymos Energia, João Carlos Mello, alertou que novembro terá o pior nível de reservatórios de todos os tempos. “Os números estão abaixo dos registrados em 2001, ano em que o país teve racionamento. Os preços continuarão elevados e devem se perpetuar em 2018”, afirmou. A Thymos estima que a bandeira vermelha no patamar 2, em vigor em outubro, se repetirá em novembro, com adicional de R$ 3,50 a cada 100 quilowatt-hora (kWh) consumidos.

Se depender do diretor da Aneel Tiago Correia, no entanto, a nova metodologia das bandeiras deve ser adotada nesta semana para poder ser aplicada no mês que vem, defendeu ao deixar um evento no Rio de Janeiro. O diretor do Instituto Ilumina, Roberto Pereira D’Araújo, garantiu que as tarifas vão continuar subindo, independentemente da mudança no sistema. “A bandeira é um sinal econômico ineficiente. O consumo médio residencial é muito baixo, de apenas 160 quilowatt/hora (kW) por mês, sendo que uma geladeira antiga consome 60kW. Como pedir para economizar mais?”, indagou.

Sem surpresa

D’Araújo explicou que o nível baixo dos reservatórios não é nenhuma surpresa para o setor elétrico e disse que o país teve índices piores de Energia Natural Afluente (ENA, que é a água que sobra para gerar energia depois de encharcar o solo). “O problema é estrutural. Abusamos dos nossos reservatórios”, disse. “Assim como usinas térmicas têm que cuidar do estoque de combustível, usinas hidroelétricas precisam cuidar dos seus rios”, completou.

O especialista alertou, ainda, que há limite para importar energia de países vizinhos. “Não temos interconexões com capacidade de trazer muita energia. Talvez seja a hora de pensar em ampliá-las, como a Europa está fazendo para intensificar a troca entre os países”, acrescentou.

Fonte: Correio Braziliense

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